sexta-feira, 22 de outubro de 2010

'Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou'

Acho que a novela acabou. Ou, pelo menos, está perto de vencer o prazo de validade. Como sempre, uma novela atrás da outra, depois de uma, novamente reprisada. Um ciclo sem fim. Já cheguei à conclusão de que gostamos e precisamos dessas novelas para continuar vivendo.
Acompanhei com pouco interesse, o resgate dos trabalhadores presos na mina de San José, no Chile. E não por ser ruim. Não sou ruim! E já falei um milhão de vezes aqui que, por mais que existam pessoas que me achem o cão (puxa, que triste!) eu não sou tão ruim assim. Às vezes até consigo perdoar sabia?! Mas outras vezes não consigo. E nem faço questão posto o merecimento de tal atitude, mas enfim. Não é disso que quero falar.
Quero descrever acerca do dilema dos pobres mineiros. Imaginem vocês (Hello!? Hello!? I don’t know why you say goodbye and I say hello. Hello!? Hello!?) ficarem presos por dois meses, embaixo da terra, com o mínimo de água e comida para a sobrevivência e o pior; sem banho!
Não consigo vislumbrar a minha pessoa ficar nessa situação por um grande período de tempo, e conseguir sair disso, em sã consciência. Verdade. Voar do carro e me colar ,ok! Dói mas eu consigo! É foda mas, eu também sou foda! Agora, ficar no escuro, isolados. Esquecidos. Sem saber se seriam resgatados. Aliás, por mais de quinze dias eles não tinham nem a idéia de que alguém estaria tentando resgatá-los. Um verdadeiro filme de terror!
E enquanto os pobres mineiros permaneciam naquela horrenda situação, não me lembro de ter lido, nem ouvido comentário algum acerca das degradantes condições de trabalho, em que estes e tantos outros trabalhadores, eram submetidos.
Temos, então, mais uma vez, um assunto vasto, que ensejaria, no mínimo, por baixo, numa reflexão por parte do telespectador, completamente transformado em mais um evento novelesco de entretenimento e alienação diária, ocasionando obscuridade ao senso crítico dos cidadãos que ainda o possuem!
Tá vendo! Por isso que eu digo que brasileiro precisa, necessariamente, de novelas, para continuar vivendo. O que seria de nós sem esses doces seriados?! O que a gente ia fazer antes de dormir, né?!
Bem, dentre as várias opções que poderiam ser concretizadas em diversas formas, com procedimentos distintos e variados, a última delas, sem dúvida, seria ler um livro, não é mesmo?! O jornal então, vixe! Nem se fala! Aquele negócio fedorento e sujo (para bom entendedor ...)! O melhor mesmo é ver a paraplégica casando, acompanhar o clone do Murilo Benício, entrar na onda do “Are Babá” e derivados.
Vamos enfeitar a rotina gente! Vamos enchê-la de trilha sonora Club FM, personagens problemáticos que, no final, sempre acabam felizes para sempre!
E, enquanto a novela prossegue, a vida acontece, e o brasileiro nem se dá conta de que ainda estamos no período eleitoral.
Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), o trabalho em mineração é uma das ocupações mais perigosas que existem. Se não for a de maior risco! Ah sim, e um pequeno detalhe, aquelas pessoas foram soterradas, precisamente devido à falta de segurança no trabalho. Como uma coisa dessas pode passar tão despercebidamente?!
A política externa do nosso Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, teria algo a ver com isso?
O governo chileno anunciou que fará uma revisão na legislação do trabalho, nas minas do país. Parece que a mina só voltará a ativa, quando estiver proporcionando aos seus funcionários, as devidas e apropriadas condições para desempenho de suas atividades. Aham. Ok. E o Lula não sabia do mensalão, né?! Bem, mas tomará que Deus ajude e ilumine a cabeça e o coração dos juristas de lá.
E, durante o fantástico resgate dos trinta e três mineiros (coisa de herói! De verdade. Parecia até filme!) nós continuamos aqui, observando a vida nos levar, ‘com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar’.
Continuamos acompanhando a vida dos atores dentro e fora da novela. Não perdemos um capítulo sequer! E, enquanto decoramos toda a trilha sonora da novela das oito, o nosso cotidiano continua o mesmo.
Os espertos instruem-se cada vez mais para criar novos, inovadores, grandes e coloridos meios de distrair os cidadãos, enquanto a banda passa.
Shhh. Silêncio! Fala baixinho que é pra ninguém ouvir. Que investir na educação que nada! O grande negócio é privatizar tudo e americanizar, mais ainda, o país do samba. Mas não espalha viu?!
A verdade é que esse é um lugar de gente feliz. Povo alegre. Muito, muito alegre! Sorrisos por todos os lados. Ficamos excitadíssimos, apenas, com uma partida de futebol. A glória é ver o Timão (Mengão, Vascão e semelhantes) ganhar a Taça Libertadores! Coisa boa é o 13º salário. Um salário a mais no bolso, né não?! Já diria a Nara Leão ‘se houver motivo é mais um samba que eu faço’.
E assim é o brasileiro. Mas sabe... acho que tudo isso tem um porquê. Uma razão de ser.
Se o trabalhador honesto, de caráter ilibado, honrado e sem antecedentes criminais, parar de tomar a sua tão querida cervejinha de domingo, e depositar todo esse dinheiro numa poupança, ele perceberá que, em quinze anos não conseguiu juntar nem o suficiente para comprar uma geladeira. Ou uma cama nova. Ou um terno naquela loja de granfino. Às vezes nem pro mês daria!
Então, é por isso que somos alegres! É por isso que aqui, as lojas de fantasias nunca vão à falência. O melhor a fazer mesmo, é colocar uma música animada, sambar descalço na rua em que cresceu, se vestir de Superhomem, e sair pulando por aí, enquanto toma a Antártica (pelo que eu vi, é a cerveja mais consumida!)
Muito melhor é comprar purpurina, muita, muita purpurina, coroa e vestido enfeitado para, nem que seja por um instante, ser a princesa de um reino encantado.
Música. Muita música pra cantar. Samba. Muito samba pra sambar. Bola. Tem que ter uma bola pra chutar. E a purpurina. Muita, muita purpurina pra iluminar! E o Rio de Janeiro continua lindo.
Brasileiro é um povo alegre. Aquele abraço! Pra frente Brasil, salve a seleção!
“Vem, pra ser feliz (pra ser feliz), eu tô no ar, tô Globeleza, eu tô que tô legal. Na tela da tevê no meio desse povo, a gente vai se ver na Globo”
E como estamos nos guardando para quando o carnaval chegar, que tal discutir sobre bolinha de papel e durex...

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"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos." - Clarice Lispector