segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Vai passar, nessa avenida o samba popular"

Era meio dia de um dia quente e seco, do outono de setembro, de algum desses anos que se passaram. De um ano que passou, mas não há tanto tempo assim. O Sol estava tinindo e trincando de fervor. A boca seca fazia a voz sair, com um pouco de dificuldade. O lábio ardia, com a falta de umidade. O vento não soprava. O céu era claro e limpo, esbanjando o azul, traço do arquiteto, na sua escassez de nuvens doidas da capital do meu país.
As flores dos canteiros, já não coloriam mais. Das árvores, só sobraram seus galhos fortes, de folhas secas caídas pelo chão coberto de jambo pisado. O ar cortante era inspirado e expirado, acompanhado de diversos goles de água, diretamente da garrafinha personalizada, que distribuem nas academias.
No eixão, o mar de carros se mesclava, por entre as pequenas ventanias de barro seco, pelos curtos e enxutos tornados de poeira, e no mormaço que ardia os olhos fazendo assim, com que todo e qualquer brasiliense, se tornasse devoto de São Pedro. Ou de Yemanjá.
E foi exatamente neste meio dia de calor, onde todos os figurantes franziam a testa, e passavam manteiga de cacau nos lábios, cada qual em seu veículo, que uma moça protagonista, por assim dizer, chorava muito.
Estava com o rosto encharcado, mas não era de suor. Não se importava com a claridade que impedia de enxergar, nem com o Sol, que torrava cada centímetro de pele, do rosto branco, que agora, detinha nariz, bochechas e olhos rosados.
Essa menina moça chorava um choro muito sofrido, de janela aberta, escancarada, sem vergonha de nada. O ocorrido deveria ser deveras grande e dolorido, já que ela não se importava com a platéia assistindo, de camarote.
Transbordava a dor, naqueles poros. Daquelas lágrimas. Uma enxurrada de pesar, de dá dó! Só vendo pra crer. Tão bonita ela. Como podia moça bonita chorar? Era impossível não olhar para aquela situação. O belo, que se enchia de feiúras e sofrimentos, era até formoso de presenciar. E, de certa forma, de apreciar. Nesse mundo tem muito pouca gente que sabe chorar. Que chora de dor no coração. Que não tem medo de chorar. Só querem a vitória e perdem a glória, de chorar.
É um medo de desmoronar, jamais se fragilizar! Ser sempre completo, perfeito, invejável. Digno de diversos acompanhantes virtuais, que tudo sabem daquela vida privada de limites que, mesmo sem fumar, queria um cigarro.
E, já quase sorrindo, já quase bão, enxugava as lágrimas, respirava fundo e repetia mentalmente, toda vez que falhava e retornava àquele melancólico estado do ser, que já vai passar. ‘Já já passa’, ela dizia para si mesma. E nem precisava de óculos escuros pra disfarçar. ‘Descansa coração e dorme em paz’, serenamente, soprava por entre os soluços, que denunciavam a intensidade da dor. ‘Vai passar, vai passar. Tenho certeza que vai passar’, insistia...
E passou, ela escreve apenas pra documentar.


["O estandarte do sanatório geral vai passar"]

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"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos." - Clarice Lispector