terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Final Alternativo

Ele nunca foi daqueles homens que no final de semana tinha a agenda cheia. Ela, por sua vez, nunca foi de ficar em casa. E não por ser muito agitada. Não, não. Nada disso! Em seu íntimo reinava a tranqüilidade. Vivia de um jeito sereno de causar inveja! Evitava ficar em casa, pra não correr o risco de, sem ter o que fazer acabar-se por pensar demais, em coisa nenhuma.
Ele, por três anos, morou no prédio de frente para o dela. Gostava de, nas horas vagas, observá-la. Ela conseguia passar uma tarde inteira lendo um livro sem parar! Nunca ia ao banheiro enquanto o filme não terminasse e, na maioria das vezes, chorava muito. Não sabia o motivo. Só sabia que ela chorava. E ria muito também. Vivia sorrindo pelos cantos da casa. E adorava andar descalça. Tão cuidadosa com o cabelo, mas ao mesmo tempo, tão desleixada com os pés. Aliás, desleixo era a palavra chave, se a hora era de ficar em casa. Ele já havia aprendido isso. Mas, se ela ia sair, começava a se arrumar quatro horas antes! Era impressionante!
O que ele não sabia é que ela também o observava. Mas de longe. Com jeito. Sem dar na cara pra ele não perceber. Mas ela sabia que ele, de vez em quando, gostava de convidar os amigos pra conversar. E que ele gostava de Bohemia, como ela. Mas que também bebia Brahma, e ela não entendia como alguém em sã consciência, conseguia gostar daquilo, mas fora isso, ele era bacana de se admirar.
Ele nunca deixava a toalha jogada pela casa. Sempre aparecia, depois do banho, com a toalha na mão, de cabelinho molhado, sumia pelo corredor, e depois retornava sem segurar nada. Isso era um bom sinal. Há não ser que ele deixasse a toalha no chão daquela outra parte do apartamento, que deveria ser a cozinha ... mas isso era pouco provável. Não havia o menor sentido. Ele havia de ser um homem sensato, benzadeus!
Sempre que ela chorava, ele sabia que a noite terminaria na cama. Sabia que ela dormiria profundamente depois disso. Sabia também que ela adorava Diamante Negro. E Sonho de Valsa. Ela não deveria gostar de chocolate branco, pois nunca a vira comendo algum. Pelo menos, não lembrava tê-la visto comer.
Ela sabia que ele, de vez em quando, tocava gaita pela casa. Ele deitava em sua cama, abria a gaveta do criado mudo, fechava os olhos e começava a soprar. Nessas horas ela fechava os olhos também, numa tentativa de ouvir a música que ele fazia.
Um dia desses qualquer, ela tentava trocar o pneu do carro que furou, logo na esquina da rua, e ele voltou pra casa, pois tinha esquecido seu crachá em cima da pia, enquanto colocava os papéis em ordem, engolindo o café da manhã, ao mesmo tempo, já que o despertador não tocou na hora que deveria tocar, e ele estava mais do que atrasado! Ele passou tão rápido que quase atropelou a moça que se esforçava pra fazer o parafuso folgar!
‘- Olha por onde andar infeliz!’, ela gritou, quando ouviu o barulho estridente dos pneus forçando uma parada.
Mas logo corou, ao ver que de dentro do carro azul feito o céu, saia o seu amor secreto, e ele quase sufoca de susto, quando percebe que a dona dos cabelos ruivos grandes, era nada mais que àquela sua visão mais bela, vista da janela, sempre que parava em casa.
Ele pediu desculpas e ela pediu ajuda. Trocaram olhares, toques e abraços. Haviam acabado de começar algo. Só não era possível, ainda, dizer o que. Mas combinaram de se esbarrar novamente, no outro dia, à tardinha. E a partir deste, ficou marcado um almoço naquele restaurante conhecido, e depois o combinado era a festa da melhor amiga, após isso era mais do que certo que os dois deveriam renovar o estoque de camisinhas da gaveta.
Ela comprou novas calcinhas e ele voltou a malhar. Ela voltou a sorrir por nada, e ele deixou de agendar tudo com antecedência. Ela, agora, só usava para dormir as camisas velhas dele, ou a de botão que ele fora trabalhar no dia, ou, simplesmente, tinha preguiça de vestir algo, e apagava exausta, ao seu lado. Ele sempre se lembrava de adicionar chocolates, à sua lista de compras do mês. E também economizava no perfume, pois ela tinha alergia.
Aprenderam a falar francês fluentemente, discutiram no show do Paralamas, choraram juntos a morte da tia dela e, nas férias passadas, resolveram viajar para a Grécia. Ele adorou! Ela achou monótono, mas não contou a ele. Ela nunca disse a ele, também, que o preferia com barba. Ele nunca conseguiu dizer o quanto a amava. Até tentava. Mas não conseguia. Ela não parecia ter esse problema... sempre tão sorridente e autêntica. Não frustrava sensação alguma. Mas ele aprendeu que, se ela estivesse com raiva dele, ao invés de demonstrar, agiria de forma indiferente, só para deixá-lo irritado. Ou então choraria. Só pra deixá-lo culpado. Nessas horas ele tinha bem muita raiva dela. E ele sentia a falta dele. Como se ele estivesse viajando. E, quando ele a abraçava, ela sentia que seu coração ia explodir e suplicava baixinho no seu ouvido, que nunca a deixasse. Ele fingia que achava tudo isso desnecessário e meloso, mas, sem ela saber, sem ela ouvir, dizia; ‘não deixo nunca! Não te deixo! Te amo!’.
Só que ela não ouvia, nem sabia. Mas pensava saber. Achava que entendia. E com o tempo veio a necessidade de ouvir. Não bastava mais, só sentir!
Ela contou isso pra ele, enquanto tirava o esmalte das unhas. Ele, em silêncio, sentia-se ultrajado. ‘Como ela pode pensar isso!? Como não amar a minha vida? Como viver sem a minha alma?’, mas, novamente, nada revelou. Sentia o peito arfar, e via que o dela sufocava também. Por que não conseguia dizer o que sabia sentir, o que ela precisava ouvir?
Inevitavelmente, ela ouviu tudo aquilo que mais queria ouvir, mas não eram os lábios deles que mexiam, ao sussurrar tais emoções. E ele a viu partir, quase como se já fosse premeditado, desde a primeira vez que ela o encarou.
Ela voltara a ser a moça do apartamento de cima. E ele voltou a ser a gaita que ela nunca ouvia.
Não sei ao certo, precisar a data, mas sei que ela se casou, e que ele, por sua vez, apesar de solteirão, jamais ficou sozinho em sua cama de casal, eu só sei que, agora que já não mais se viam, nem tampouco se reconheciam, apesar de conhecerem-se tão bem, não existia nenhuma maneira menos constrangedora de dizerem adeus, um para o outro, sem sentir aquele velho arfar e sufocar, atacar dentro do peito. Nenhum dos dois gostaria de reviver os sentimentos, é bem verdade, mas algo precisava ser dito, e, como sempre, coube à ela o primeiro passo.
Dias depois que ele viu. Dias não, meses. Meses não, talvez apenas quando o apartamento foi vendido, que ele reparou nas letras garrafais grandes, escritas em vermelho batom (ele tinha certeza que era o batom dela) uma pequena confirmação, de algo que ele já não lembrava mais; ‘- Existimos querido. Eu te amo’.
Não foi um sonho, afinal. Não, não foi um sonho. Podiam não ser mais, mas, nunca, nunca mais foram, jamais outra vez tornaram-se, apenas, ele para ela um homem comum e ela para ele, o sonho impossível.
Não, não. Isso nunca mais ...

2 comentários:

  1. Ah Bia *-*
    Que saudade eu tava dessas palavras!
    Fazia um tempinho que eu não aparecia por aqui..
    Sempre qunado eu leio essas histórias fico me imaginando no lugar dos personagens e sorrio com eles, fico triste e no caso dessa história, fiquei com uma sensação de saudade. Estranho, né?
    um beeijo, Biaa.
    sua leitora fiel. ♥

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  2. Tenho a mesma sensação de estar no lugar dos personagens e com as suas emoções. Um dia vou escrever bem bonito igual você :) Não canso de dizer que adoro seus textos; Sucesso!

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"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos." - Clarice Lispector