terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Nada de Novo

Amanheceu. Era chegado aquele ‘novo dia’ que tanto anunciavam. Já era amanhã e o dia já estava claro, com a luz do Sol. O mar estava lindo, como todo dia de mar deveria ser. O cheiro continuava sendo, aquele mesmo agradável cheiro de maresia de sempre. O vento soprava forte, aliviando o calor que matava! Tudo resistiu ao amanhã. Tudo ressurgia hoje. Normalmente. Como toda renovação de manhã deve continuar persistindo. Do jeito que é. A vida segue. Mas, apesar de tudo e apesar de nada, algo acontecia dentro dela. Era algo diferente de tudo. Não era nada mais. Mas eram muitos menos. Mas era demais! Angustiou-se. Outra vez.
Era como todos diziam; ‘o que mais você pode querer?’, ‘você tem tudo o que sempre desejou’! E era verdade mesmo! Tinha tudo que importava! Pra quê querer mais? Um exagero! Uma tolice! Uma vergonha, isso sim! ‘Finalmente consegui tudo o que sonhei, sou o que sonhava, faço o que sonho, que mais sonhar, então’?
‘Que mais sonhar?’, suspirava de pensar! ‘Não tenho mais o que desejar, pois já tenho em mim a parte desejada’, repetia de olhos fechados. Verdade. De fato! Vivia seu sonho! Dormia com ele e acordava sempre acompanhada. Vestia outros sonhos. Calçava alguns. Dirigia outro. Morava em outro. Trabalhava em mais um e, sempre, antes de sair, beijava a outra que dormia profundamente.
O que falta? O que querer? Pra que desejar e por que sonhar? Ainda podia? Mas existiam. Ainda persistiam. E partiam. Sem volta. Só ida. Somente. E muitos ‘se’ na mente. E no coração.
Alguma emoção pequena desejava arriscar. Arrependia-se de pedir. Mas não podia deixar de sentir, uma coisa qualquer sem razão. Dominava sem licença pra entrar. Nem pra morar.
Já não queria a companhia do tédio. Não queria ser forçada a aceitá-lo. Queria ter por perto o entusiasmo da esperança, que proporciona a ação da vontade, que faz a vida valer. De querer encontrar o novo modo de amar. Pra aprender a ser sem ter nada pra faltar. E pra compartilhar tudo que vier. Inconseqüente por desejar? Insano não bastar?
A sensatez e a razão excluíram o desatino de arriscar. Sem pensar, nem pesar. É um erro desejar vários primeiros beijos e querer, a cada vez, deflorar? E deixar-se invadir, também, pela primeira vez? Pecado querer o não conhecimento do iniciante, por toda vida? A sensação da descoberta, todo dia? E a surpresa que acelera o coração, a cada segundo?
Faltava ser sem vergonha de ainda desejar. De querer conquistar. E reconquistar. De um jeito diferente de fazer. Inovar em ser igual, apesar de fazer de outra maneira, sem querer ser santa, nem macumbeira. Sem jeito pra decorar o que já sabia entender.
Só queria arejar a sua biografia! Não ser mais tão sentida, e esquecer algumas coisas da vida. Estrear as suas idéias reprimidas e nada abençoáveis! Ser protagonista da sua própria história, mais uma vez. Aprender de novo, que tem coisas erradas, que não podia mudar. E coisas certas que não podia controlar. Que o passado não dá pra transformar. Nem o futuro, enxergar. Somente preparar. Cultivar.
Ela queria apenas o que amar. Queria mais pra desejar e algo pra sonhar. Era só fase, sabia. ‘Podia fazer diferente’, percebia. E já não era mais misteriosa pra ela mesma, admitia. Só não estava satisfeita.
Totalmente satisfeita. Plenamente satisfeita. Pensava. Será? Saudade de um não sei o quê. ‘Sou raso, largo, profundo’, cantou. Tinha esquecido isso! Queria mais. Faltava algo. Não estava satisfeita.
‘Ainda bem’! Disse, abrindo o lindo sorriso de todos os dias ...

0 comentários:

Postar um comentário


"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos." - Clarice Lispector