segunda-feira, 27 de junho de 2011

Tsuru

Existia uma menina que adorava passar seu tempo, fazendo passarinhos de papel. Ela os colecionava. Fazia passarinhos de papel de todos os tamanhos e de todas as cores. Seu quarto era todo enfeitado desses pássaros.
‘Isso mais parece um dinossauro’, alguns meninos diziam, só para implicar com ela! Ela respondia, sem dar muita trela, que era um tipo de pássaro que voa bem alto, chamado Tsuru.
Tinha orgulho de falar esse nome; Tsuru. Era bonito. Pássaro importante! ‘O-ri-ga-mi’, dizia. Nada de dobradura! Era uma criança bem orgulhosa, daquelas amostradas, que toda nota boa que tirava na escola, ou todo novo menino que decidia gostar, era motivo para criar um passarinho novo, nova cor, novo tamanho, novas pintinhas azuladas, novas listrinhas marrons e novo bico vermelho ou preto.
Cada Tsuru, um desejo. Cada sonho, um novo pássaro que voa alto.
Ela fazia um pássaro azul, vinha logo um menino e perguntava; ‘Cadê a esposa dele? Faz um pássaro rosa também’.
E ela, impaciente que era, já respondia que eles andavam em bandos e sozinhos! Cada um no seu vôo. Todos juntos. Não tinha esse negocio de passarinho em dupla. Era em bando. Ban-do! ‘Por que será que meninos nunca entendem as coisas mais simples?’, resmungava incrédula!
Até que um novo menino entrou na turminha da escola. E pelo sotaque ele vinha de Minas, ou de algum lugar onde as pessoas costumam falar engraçado, ela não sabia ao certo a sua origem, mas o que lhe chamou a atenção é que ele entendia das coisas! Era sabido. A primeira coisa que disse pra ela quando viu os passarinhos foi:
- Faz um pra mim também! Eu quero o meu todo verde! Ai o meu pássaro pode ficar junto dos seus?
‘Esse menino é diferente dos outros’, ela pensava. E todo dia fazia um Tsuru diferente. Cada um mais bonito que o outro. Tudo na esperança dele vir conversar de novo! E ele vinha. Ele ia. Sempre ia e vinha. Indo e voltando pra ela. E para os pássaros.
O tempo passou e eles começaram a fazer tudo juntos. Andar de bicicleta, brincar de pega, curso de inglês, fizeram natação, teatro, aprenderam a tocar violão e a andar de skate. Tudo juntos! E ela sempre fazia Tsurus para ele.
Sempre que ele ficava triste, ganhava um Tsuru. Quando estava feliz, ganha outro Tsuru. Quando caia da bicicleta, lá estava ela dobrando e criando outro passarinho de papel. E em troca ele dava sonhos de valsa, às vezes jujubas, e com o tempo, ele a presenteava com beijos.
Mas ele não queria aprender a fazer esse pássaro não. Ela até tentava ensinar, na sala de aula, no recreio, nas tardes que passavam conversando, e nas noites que dividiam os lençóis, mas nada feito. Ele não queria aprender. Dizia que isso era coisa dela. Só dela. ‘Eu não preciso aprender. Você faz para mim e eu guardo todos’. Era simples. Muito simples.
Mas um dia o pai dele teve que se mudar. Ou foi o tio que passou no concurso do Banco em outro estado, e ele foi junto. Algo assim. O fato é que ele foi morar longe. Bem longe! De volta para aquela cidade lá, onde as pessoas falam engraçado. E ela ficou aqui, com o bando de Tsuru. E ele lá, sem ninguém para fazer passarinhos de papel.
Tentaram manter contato, mas você sabe como são as coisas né? Colégio novo, meninas novas, e pássaro rosa solitário logo arruma companhia de outros da cor azul, vermelha e, por que não, até laranja mesmo!
Mas ela nunca deixou o seu costume de dobrar passarinhos pelas esquinas. E mesmo mocinha, a cada Tsuru verde que fazia, lembrava dele, e sentia saudade.
Uma vez, o noivo dela resolveu arrumar a casa que moravam com a ajuda de uma boa faxineira que tinha encontrado recentemente, mas a senhora, quase joga um bando de passarinhos que tinha no chão da sala, ao lado do sofá, no lixo! O noivo aflito, vendo a cena, rapidamente chega até essa senhora que só pretendia ajudar, e fala; ‘não faça isso que a Cecília adora esses passarinhos de papel, principalmente esses verdes! Deixa que eu guardo todos!’
Mais ou menos nessa mesma época, o agora crescido Raul, exibia todo orgulhoso um Tsuru, e o deixava em cima do criado mudo. Sua nova namorada então, surpresa, olha para aquele origami e pergunta:
- Não sabia que você entendia de dobraduras Raul! Faz um desses rosa, pra ficar junto desse verde escuro aqui!
Ele, impaciente, responde:
- Pois é. Resolvi, enfim, aprender! Tenho ainda um bando para fazer. Ah, e isso não é dobradura, é origami. O-ri-ga-mi! (#longosuspiro,elanãosabedascoisas,longosuspiro!)

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"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos." - Clarice Lispector