Querida amiga,
Fiquei pensando em todas aquelas coisas que você me disse. Essas coisas tão tristes e tão vergonhosas que aconteceram na sua vida. E na minha vida. E não somente porque tudo aquilo que acontece com você repercute em mim porque eu te amo muito, mas também, e talvez principalmente porque isso tudo que você me contou no telefone é corriqueiro. Um grande obvio que demorei a perceber. Falo desse negócio que se repete a toda hora.
Há algum tempo atrás, tempo nada remoto inclusive, acreditava que essa coisa era exclusividade minha. Que só acontecia comigo. Não reparava que isso é algo como uma sessão da tarde, que reprisa o mesmo filme a toda hora, todo dia, por mais que todo mundo já esteja completamente enjoado de tudo! E não que isso sirva de consolo, afinal, nem eu, nem você tenho certeza, consegue se consolar sabendo que essa coisa vive acontecendo e entristecendo a todos que estão a nossa volta. Mas isso nos ajuda a entender e a, por incrível que pareça, nos manter equilibradas. Não a coisa em si, mas o fato de saber que ela não é peça única, apenas, do nosso guarda roupa. É quase do mesmo jeito que uma loja de departamentos, onde aquela pessoa que você vê todos os dias, mas não tem a menor intimidade pra dar ‘oi’, aparece com a mesma blusa maravilhosa que estava em promoção e que você adorou, pois lhe serviu como uma luva, e só lhe resta agora disfarçar colocando um casaco por cima da tão amada aquisição que você jurava que era exclusiva, mas ... nada em lojas de departamentos é peça única honey!
Pois é, então, eis que descobri a verdade – antes tarde do que nunca; Isso acontece toda hora! Não minha querida amiga, eu não estou sendo pessimista. Sabe que me esforço pra manter o otimismo. Apenas quero te dizer que isso é muito comum. Praticamente a mola que move o mundo. Que faz a Terra girar. Ok, exagerei, mas não disse nenhuma mentira! Já parou pra reparar quantas músicas lindas, poesias e filmes foram feitos a partir deste fatídico final (in)feliz?! Foram criadas esculturas, quadros, peças de teatro e até rede social em internet pelo amor de Deus (já assistiu o filme do facebook né amiga?), e tudo isso graças ao tão falado coração partido.
Quantos arranjos musicais e até descobertas cientificas não teriam sido feitas, sem essa tal desilusão? Não que eu acredite que o sofrimento seja a única maneira que temos para aprender as coisas. Não acredito nisso mesmo! Aliás, eu peço pra Deus me ensinar sempre com muito amor! Mas agora minha linda, observe bem as coisas como são; você sabe o que é melhor pra você? Sabe mesmo, com certeza? Você se conhece perfeitamente? Não, melhor que isso, você simplesmente, sabe quem é? Quem de fato é? Todas as aspirações, talentos e defeitos? Sabe, pormenorizadamente, do que seria capaz nessa vida? Bem, eu não me conheço amiga. Nadinha. Ultimamente cada dia tem sido uma surpresa, eu diria. E a parte boa é que tenho me surpreendido positivamente comigo mesma. Não que a vida só tenha me dado cenas de filmes de comédia romântica para viver, e na verdade está tudo mais para um ‘Planeta dos Macacos’ do que para qualquer outra coisa, mas me peguei tendo reações inusitadas para situações um tanto quanto difíceis. Acho que meu crescimento está chegando, aos trancos e barrancos, de um jeito ou de outro, mas estou, enfim, crescendo. Bem, mas não era disso que queria falar. Onde eu estava mesmo? Ah sim, esse negócio de autoconhecimento. Complexo.
Mas então, se você, pessoa imperfeita como eu e como qualquer outra pessoa deste mundo, não se conhece com exatidão, como você sabe precisar aquilo que é bom pra você? Como você consegue diferenciar uma situação que é completamente injusta de vivenciar, com outra ‘do seu número’? Não dá. E esse é o ponto que quero chegar com você. A gente, de fato, não sabe o que é melhor pra nós mesmos. Eu até ouso dizer que, alguns de nós, podem ter uma boa idéia do que seja bom e não tão bom assim, mas saber os planos, os caminhos e os atalhos ... só Ele mesmo não é? E se somente Ele nos conhece e sabe o que é melhor para nós, como podemos lamentar por essa coisa ruim que (nos) aconteceu?
Ta bem, ta bem, você vai me dizer que lamenta, porque dói. E dói mesmo! Machuca né? Arde o peito e é difícil respirar. É triste pra levantar da cama, dá enjôo e vontade de não comer nada. Ou então de comer tudo. E parece que a vida se tornou sem graça, tudo preto no branco, como naqueles filmes de antigamente, e nada parece que, algum dia, vai voltar a brilhar. Quase como se tudo que existisse fosse silêncio, vazio, e pó ...
I-lu-são gata. Tudo isso é falso! Mas nada de pular etapas. É preciso também lavar a alma de vez em quando. E essa tal noite escura serve perfeitamente pra isso. Mas depois vem a merecida calmaria. Como se poderia enxergar a beleza de um amanhecer, sem ter visto, de perto, o frio de uma noite sem sal? E meu bem, se Ele permite que coisas como essa aconteçam é por algum motivo, ou você acha que tem capacidade e envergadura moral para contestar algo que Ele permitiu? Eu já tentei, e já desisti. Nem no meu melhor momento Einstein consegui chegar perto. Então encontrei a minha paz, de algum jeito e de alguma maneira, somente aceitando as coisas, inclusive essa coisa que acontece corriqueiramente. Percebo hoje que, se Ele, que só deseja o meu bem, permitiu que essa coisa devastadora acontecesse comigo, é porque existem razões e motivos para tanto. Talvez porque aquele amormaiordomundo, não fosse tão predestinado assim, afinal. Talvez Ele esteja apenas me salvando de uma situação que não geraria bons frutos, ou talvez Ele esteja me proporcionando um aprendizado e um aperfeiçoamento que só seria possível de acontecer para mim, cabeça dura e teimosa que sou, desse jeito mais assim de ser. Desse jeito assim mais doído mesmo. Com essa coisa que é dolorosa de carregar dentro do peito.
E não sei o que acontece meu amor, mas depois que essa coisa toda passa, algo como uma força sobrenatural se instala dentro da gente, no lugar daquela piegas mazela de antes. E ai a gente percebe que deixar ir, é a coisa mais corajosa e mais maravilhosa que podemos fazer por nós mesmos! Não é questão de virar santa e dar a outra face. Nada disso. Esse negócio de ser santa deve ser chato pra burro, não canso de dizer, mas falo em ‘esquecer’, em nome apenas e tão somente, do nosso próprio bem estar. Porque egoísmo também pode significar amor próprio ...
E ao desapegar e deixar o que passou, para trás, eu estou demonstrando amor e respeito por aquele ser que mais merece o meu amor e respeito, qual seja, eu mesma! E me dando, decerto, a oportunidade de recomeçar. Ou você ainda acha que alguém poderá suprir a falta de amor que você porventura sentir por você mesma? Ou que a sua paz só será fornecida por energias externas, nada relacionadas a você mesma, nem ao seu interior? Já diria Dalai Lama; ‘Dê a quem você ama asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar’. Cuide de você mesma. Do seu próprio crescimento e da sua consciência. E o mais importante – isso eu aprendi num livro amiga, por favor, quando puder, leia ‘O Quinto Compromisso’, do Don Miguel Ruiz -, se demos o nosso melhor, se fizemos tudo o que foi possível e não deu certo, o problema não é meu. Não leve essa coisa para o lado pessoal. Não tente encontrar defeitos em você que não existe! Cada um de nós é um verdadeiro artista e cabe a nós mesmo transformar as nossas vidas em obras primas! Mas você também pode optar por desenhar uma existência triste e sem cor. A escolha é sua.
E então eu chego ao seu telefonema. E o que eu estou tentando te dizer minha querida é aquela coisa clichê de ‘Nossas dúvidas são traidores e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar se não fosse o medo de tentar’. Clichês são bregas, bem sei, mas isso não quer dizer que eles, necessariamente, estão equivocados. E isso também não quer dizer que essa frase pertença ao William Shakespeare ... tenho duvidas se esse não é um daqueles dizeres que todo mundo atribui, erroneamente, para o Mario Quintana, William Shakespeare, Paulo Coelho ou Clarice Lispector, quando é da autoria de, na verdade, algum escritor desconhecido do sul do país, que não ganhou os créditos de sua própria criação, devido a uma má divulgação gerada dentro do Deus Google mesmo. Bem, mas isso não vem ao caso (é, diga isso para o verdadeiro autor lesado e sem o seu devido reconhecimento).
Mas veja bem minha querida, se a vida lhe deu uma nova chance, quem sabe esse não é um daqueles momentos que também acontece muito por ai, e que também gera muitas esculturas e trabalhos de patchwork, de total perfeição e incredulidade, de grande intensidade, beleza e amor, e que, por ser assim tão perfeito e tão memorável, torna-se tão difíceis de acreditar? É tipo um sonho que se torna realidade e que, quando está acontecendo, a gente fica assim toda boba, de olhos esbugalhados, coração disparado e até fica se beliscando pra ver se é real e se não passa de outra fantasia sonhada.
E como saber, então, o que essa coisa é? E eu te digo, nas palavras de um amigo muito querido; se jogando amiga! Mas a escolha é sua (olha aí a danada da escolha de novo), você pode se fechar no seu escafandro, apesar de ser uma linda borboleta (oportunamente recomendo também ‘o escafandro e a borboleta’), pelo medo de sofrer novamente com essa coisa que aconteceu com você, e comigo, e com esse mundo todo de meu Deus, ou você pode deixar aquilo que passou ir, e deixar acontecer o que talvez esteja se iniciando enfim/por fim. E, aliás, deixo aqui o registro para todas as minhas outras amigas que também estão me lendo, e que já estão vivendo (n)esse sonho, o meu desejo que o tal momento tão bem falado, torne-se eterno.
E sabe minha amiga, se por acaso quem sabe, o pior aconteça e ele não seja nem metade daquele príncipe que a Disney e seus filmes implementaram nas nossas cabeças desde que nascemos, estando mais para um sapo do que para qualquer outra coisa, você acha mesmo que, depois de ter vivido o duro período de fortalecimento, e ter sobrevivido a essa coisa que devasta o nosso ser, corpo, alma, vísceras e entranhas, você vai ficar toda dolorida de novo, como ficou naquela outra vez?
Aliás, o pior que poderia acontecer, é que as coisas voltem a ser da maneira como são agora, exatamente agora, nesse momento presente que Deus lhe deu, mas será que está tudo tão ruim assim afinal, pergunto-me e te pergunto ...
"Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão ... eu passarinho.” - Mario Quintana.

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